Ruído II
Uma era se passou e os olhos da criatura enfim tornaram a abrir. A noite havia estendido seu pesado manto sob o céu onde agora pequenos pontos cintilavam frente toda aquela escuridão. Ela olhou em volta e nada parecia como quando chegou, as árvores que antes transmitiam proteção agora se moviam de forma fantasmagórica, as sombras projetadas no chão pareciam querer lhe agarrar pelos tornozelos. Olhava ao redor buscando alguma saída e viu a trilha que havia lhe trazido ali. Forçando o olhar ela podia jurar que via a claridade da cidade.
O vento que outrora lhe sussurrava cantigas agora gritava pesadelos. O canto dos pássaros soavam como cantigas cantadas aos mortos. Mesmo o tronco que havia lhe acolhido agora parecia ter um cheiro de podre. O peito parecia se comprimir mais e mais até pôs-se em pé. As pernas fraquejaram um instante, porém logo em seguida a firmeza se fez presente e logo a criatura estava caminhando pela trilha por onde havia vindo. Ao longe podia jurar ver o clarão que a cidade emanava.
Conforme se afastava da clareira um medo lhe tomou conta: Temia que o ruído voltasse. Cada passo dado tinha um instante de auto percepção, um instante prestando atenção em si própria. O ruído não voltou no primeiro passo. Ousou dar dois passos antes de refletir se o ruído havia retornado. Depois três. Quatro. Depois uma hora inteira de caminhada sem notar nada além dos sons externos. Respirou aliviada quando chegou na bifurcação sem nada lhe atormentar a audição.
Apesar da penumbra conseguia ver as silhuetas das árvores, o chão em um tom mais esbranquiçado, quase como se alguém tivesse jogado areia sobre aquele caminho até que reconheceu aqueles galhos baixos. Sua capa não estava mais ali. Checou os arredores e não havia o menor sinal da presença dela. Será que havia ficado tanto tempo assim na clareira a ponto de algum andarilho ou até mesmo alguém perdido na mata tê-la levado? Sorriu de canto dando de ombros desejando que quem a achou fizesse um bom uso.
O som de água a fez lembrar do rio. Anteriormente era um córrego estreito o suficiente para vencê-lo com um salto. Agora sua largura havia triplicado de tamanho. Ponderou como passaria por ali agora. Se ao menos tivesse um galho para ter certeza da profundidade poderia entrar e atravessar a pé mesmo... Mas nenhum galho parecia ter ou o comprimento ou a durabilidade necessária para aquela missão. Foi quando se deparou com um tronco. Apesar do tamanho era de uma madeira leve e, com algum esforço o ergueu elevando-o à condição de ponte.
Ao atravessar o rio sentiu-se feliz e se lembrou de checar se o ruído não havia passado o rio junto dela. Fechou os olhos. Respirou profundamente. Toda a floresta ficou em um silêncio tão profundo que ela jura ter ouvido o próprio coração. Mas nada do ruído. Soltou o ar aliviada. Antes de dar o próximo passo olhou em volta e, frente todas as coisas que tinha passado de maneira exitosa, cogitou estar sonhando. Era isso. Tudo não passava de um sonho. Uma dúvida lhe ocorreu brevemente: ao acordar estaria onde? Na cidade ou na clareira? Não tinha certeza se gostaria da resposta. Resolveu voltar a andar.
O passo seguinte sentiu algo lhe beliscar o braço. Sentiu dor e um fino fio de sangue se desenhou em seu braço, obra de um galho com espinho na trilha. Espera... Olhou em volta preocupada. Sempre ouviu que se sentisse dor em sonho imediatamente acordaria e, ela seguia ali. Então isso quer dizer que... Tudo era real. Havia deixado as sombras para trás, viu que sua capa não mais era sua e nem mesmo o rio que agora tinha seu tamanho considerável a assustou. Respirou satisfeita de si e suas escolhas.
Não muito longe podia ver a cidade se desenhando no horizonte. Olhou para si. Estava diferente de quando havia ido. Não só o ruído havia ido embora como também se sentia mais leve, cheia de uma energia e de uma paz... Antes de entrar pelos portões da cidade olhou para trás e, com um sorriso acompanhado de lágrimas de felicidade, agradeceu a floresta pela ajuda em todo o seu processo, por toda a sua transformação. Encheu o peito de ar e, enfim, adentrou nas grandes muralhas. Agora era com ela.
