Ruído
Há muito tempo atrás um fragmento do que habita a superfície caminhava pelo que chamam de cidade desnorteado, cambaleante, não era por bebida nenhuma, tampouco por um amor impossível. Não tinha explicação, por mais que os ditos médicos tentassem explicar era algo que lhe incomodava, um ruído sutil vindo de dentro do ouvido.
Nada fazia cessar aquele pequeno barulho. Mesmo cobrindo com música, com conversas ou qualquer outra coisa, lá no fundo estava esse ruído lhe causando o sutil incomodo de algo que não se explica. Não com palavras.
Conforme o tempo passava o volume desse som aumentava, quase tinha outras nuances, ora um tom mais grave, ora um tom mais agudo. Mas estava presente a tanto tempo que, de alguma forma, ele aprendeu a conviver com aquilo. Mesmo que muitas vezes falassem que estava inventando, afinal ninguém mais ouvia aquele som. Apenas suspirava resignado e seguia adiante. Até aquele dia.
Enquanto caminhava próximo ao fim da cidade notou que o ruído diminuiu gradativamente. Parou um instante e olhou para trás. Apesar do incômodo havia aprendido a conviver com aquilo, com aquela espécie de algo tão seu. Alguns, por troça, diziam que era “o do barulho”, tantas décadas aprendendo a se conformar com o que se tinha e agora essa trilha que adentrava na mata... Por que agora? Por que eu? Eram perguntas que lhe rodavam a cabeça misturadas com o som que sempre o incomodou.
Sem dar nenhum passo apenas inclinou o corpo na direção das árvores e o ruído diminuiu, fez o mesmo teste inclinando na direção da cidade e o ruído voltou a ser o que sempre foi.
Estava em um impasse. Daqueles que impactam toda uma existência, daqueles que fazem pensar. Daqueles que fazem imaginar o que se pode ser se tomar uma trilha ou outra... E se sentasse no chão e ficasse por ali? É isso, moraria nos arredores da cidade, durante o dia toleraria o ruído em seu ouvido e a noite buscaria a paz da floresta, perfeit... Não.
A respiração se acelerou. Um frio na barriga lhe gelou o corpo inteiro por alguns instantes. Deu uma última olhada por cima do ombro, para a grande cidade de pedra, sorriu de canto e deu o primeiro passo na direção da mata. Cada passo sentia que estava deixando algo importante para trás, um teto, amigos, bens... Não. Enfim encontrou algo que começou a silenciar tudo dentro de si. Enfim encontrou algo que estava lhe trazendo paz. Agora não podia parar.
Conforme caminhava a trilha que parecia fácil trazia seus desafios, uma árvore repleta de espinhos, um animal venenoso, dardos com veneno atirados sabe se lá de onde, ruídos mais altos do que jamais ouviu que duravam alguns instantes e sumiam quando o próximo passo seguia o anterior.
Após algum tempo se deparou com um pequeno curso d’água, não aparentava ser fundo e, de uma margem a outra acreditou que poderia saltar o que de fato logrou êxito ao fazê-lo. Mas a capa que lhe cobria os ombros indo até próximo do chão teve suas pontas mais inferiores molhadas por aquele rio. Adiante a trilha fazia uma curva abrupta. Olhou em volta. Não havia ninguém ao redor. Gentilmente tirou a veste e a deixou em sobre um galho baixo duma árvore, não sem antes dar um abraço naquele tecido e agradecer as noites que ele havia lhe aquecido e protegido do frio.
Ao adentrar mais na floresta deu de cara com uma pequena clareira. Pode ver o céu em um tom de azul que jamais havia visto. Em uma intensidade que, na cidade, era misturado com um tom esbranquiçado da fumaça. Sem saber porque parou um instante. Sentou-se em um tronco caído. O ruído havia cessado. Podia ouvir o som dos pássaros, de uma cachoeira ao longe e até mesmo o vento parecia lhe contar uma cantiga. O peito explodiu em tranquilidade. Se acomodou naquele tronco sentindo seu corpo se transformar, junto do fim do ruído havia deixado de ser quem era e agora se tornava uma criatura única com toda aquela energia, com toda aquela paz.
